quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

3 parágrafos

Audrey Hepburn, Moon River
É engraçado ver como as coisas acontecem. É irônico ver que a vida segue um curso que nenhum de nós consegue prever. E os momentos em que mais estive triste aconteceram exatamente quando tentei estar um passo à frente dela.

Cá estou eu, quieto na minha, tentando me acostumar com algumas coisas que aconteceram recentemente. Família, sempre com problemas como todas as outras, deixei meu emprego, e recebo a notícia que vou me mudar. É, a vida é implacável, e o engraçado é saber que sempre tenho uma parcela de culpa.

No meio de tudo isso, como se a calmaria viesse ao fim do temporal, como se o inverno tivesse dissipado sua última brisa gelada em nossos rostos, no meio desse vendaval de fatos e no meio de um tempo conturbado, ela aparece.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Relacionamentos

Então, eu estava aqui pensando sobre relacionamentos, e canções sobre relacionamentos, então veio pra mim o seguinte: Eu meio que imaginei a chave dos relacionamentos em como fazê-los funcionar. Acompanhe comigo.

Quando você conhece uma pessoa, você descobre nela o que você gosta, ai vem um amigo dela, ou um amigo de um amigo dela e diz pra você "ela gostou muito de você", isso te joga no chão, acaba contigo, você fica meio perdido e tem que voltar pra superfície. Ai você pega o telefone dela e tem uma ótima conversa, daí você vira pra ela e diz "poxa, a conversa foi muito boa, será que nós podemos nos encontrar um dia desses, só nós dois?" Então a pessoa diz, meio na dela, "sim, eu gostaria disso".

"Eu gostaria disso" te joga no chão e faz seu coração quase parar. Só por causa dessa frase. Nada te faz sentir melhor do que "eu gostaria disso." Então agora sua pulsação aumenta, você fica a uns quinze centímetros do chão, planando, e você não consegue dormir por causa do "eu gostaria disso".

Então você investe mais, começa a ligar mais, e conversar todo o tempo, e está dando certo, ai você joga a bomba pro alto e decide ir mais fundo, você vira pra pessoa e diz: "quer saber? Eu venho pensando em você". Então ela dá uma respirada funda do outro lado da linha meio que perdendo o fôlego e você diz "o que aconteceu? Você está bem?" Ela vira pra você e diz "desculpe, me desculpe, é que... É que eu venho pensando muito em você também."

BOOOM. Você agora está a uns 45 metros do chão, alto no céu.

Agora o "eu gostaria disso" já era, não tem mais poder algum, agora a frase coringa é "eu venho pensando muito em você também".

Então, não importa o número de semanas que se passaram, ou meses, ou dias pros rapidinhos, o tempo que levar pra você se sentir confortável e dizer pra pessoa: "olha, tenho algo pra te contar" e a pessoa diz, "pode falar", e você subitamente vira e fala "eu amo você."

E nada no mundo soa melhor do que "eu amo você".

E talvez ela comece a chorar, ou talvez ele perca o fôlego. Repentinamente.

Mas agora, o que não funciona? "Eu gostaria disso" e "Eu venho pensando muito em você". Por que agora vocês estão no nível "eu amo você."

Eu amo você, é o que perdura, mas o tempo vai passando, ai você começa a mudar a intensidade, você diz "eu amo você muito", "eu amo você muito mais", "eu amo você mais do que qualquer coisa nesse mundo", e agora, "eu amo você não funciona mais, você tem que continuar.

Ai você avança seis meses, ou seis semanas, qualquer tempo que for dependendo do caso, e agora as frases são "eu quero me casar com você", "eu quero engravidar você com meu amor"... "Eu quero, eu quero... Eu... Caramba, as palavras não funcionam mais!" Ai você apela e vai pra essa frase: "Eu gostaria que eles colocassem uma nova palavra no dicionário que seja maior que "amor", por que "amor" já não descreve o que eu sinto!"

Então agora, chegamos num ponto em que ele ou ela começa a perguntar "você me ama?", e você diz "é claro que eu te amo", e ela ou ele: "Então diga pra mim!", e o desespero te leva para a parte do "diga duas vezes então", "diga três vezes"...

E então, você atravessa um ponto muito, muito interessante, em que de repente acontece um "eu te odeio". E você pensa, "Oh meu Deus, ela me odeia". E agora está mais pro "eu te odeio mais do que qualquer coisa", e daí para o "acabou pra nós", então você diz "não, não acabou", e ela diz "sim, acabou!"

E agora as palavras simplesmente não funcionam mais, você está devastado, você está dando socos na água. Está acabado.

Você sabe qual é a moral da história, se é que essa história tem uma?

Nunca, nunca, jamais, subestime o poder da frase "eu gostaria disso."


T. Rodrigues

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Conversa de Botas Batidas

- E agora amor, o que acontece? - Ele pergunta pra ela.
- Acontece que agora a gente está livre.
- Livre de quê? O moço bateu na porta duas vezes Maria. Está na hora de ir. 
- Mas eu prefiro ficar.
- Prefere? Está louca?
- Tá na hora de ser feliz. De parar de se esconder Ruy.
- Feliz como, eu não vejo onde. Ficar aqui é esquecer tudo. É entregar tudo pro acaso.
- Pelo contrário! Cansei de fingir, cansei de me esconder! Não quero mais um minuto que seja, longe de você. Você é tudo pra mim, e se eu passar dessa porta eu te perco de novo. Cansei de repetir essa fuga sempre! De não te ter ao lado sempre! Não quero mais isso. Eu quero ficar.
- Mas se a gente ficar...
(Interrompendo, Maria continua) - Eu sei! Mas eu não me importo.
           
           Ruy pára pra pensar um pouco, tentar entender. Ele escuta o barulho das pessoas correndo do lado de fora. Tenta raciocinar um pouco, pensando na situação e tudo mais. Ele olha pra fora e vê a rua cheia, os carros passando, a vida continuando da mesma forma de antes. Então ele olha pra cama e vê Maria deitada.
           Mesmo com todas as informações correndo em seu cérebro como maratonistas, ele vê que ela era tudo o que precisava. Observou seus contornos. Sua boca e seu cabelo liso. Ele viu que se existisse um porto seguro, era ela.

- Acho que cansei da nossa fuga. - sussurra Ruy, por fim falando algo.
- Vem, volta pra cama, que nossa hora chegou!
- Mas eu estou com medo.
- A vida é passageira! E a gente se pertence. Esse é só o começo do fim da nossa vida.
- Eu sei, eu sei. Então é melhor eu voltar pra cama.
- É, vem e me abraça! Que eu quero te curtir uma vez mais.

           E os primeiros barulhos começam. Os primeiros tremores. E o silêncio no corredor.

- Maria, tá acordada?
- Sim, por que?
- Por que eu queria falar que te amo. De novo.
- Eu também te amo! Eu acho que a hora tá chegando.
           
           Com lágrimas nos olhos, os dois se abraçam uma última vez. E então o hotel cede acima deles.

           Algumas horas antes desse diálogo, esse acidente foi previsto por um dos funcionários do hotel, que foi avisando para todos os hóspedes assim que imaginou o pior. E assim começaram a evacuar o lugar. Pessoas correndo pra todos os lados, mesmo organizadas, tentavam sair daquele hotel no Rio as pressas. Quando todos se reuniram na porta do hotel, observando do lado de fora, pensaram que um milagre aconteceu. Que o pior tinha passado. Mas no fim das contas, foram encontradas duas vítimas fatais, encontrados abraçados num dos quartos do hotel.

           Ruy (71 anos) e Maria (62 anos) eram um casal de idosos que, supostamente, viviam um amor proibido. Eles eram casados, mas com pessoas diferentes. Tinham filhos, netos... famílias completas. Mas viviam um amor às escondidas há meses, quem sabe anos. Sempre iam no mesmo hotel, para fugir de tudo.

Escombros do Hotel Linda do Rosário - Rio de Janeiro
           A história é uma história real. Esse texto é apenas o que imaginei do diálogo que eles tiveram antes do acontecido. O fato de um tentar convencer o outro a ficar no hotel, enquanto tudo desmoronava... Era demais pra imaginar. Histórias e mais histórias de amor são contadas, em filmes, músicas e livros. As vividas, as que são reais mesmo, a gente só imagina, ou presencia.

           Essa história também foi imaginada, em forma de música, pelo cantor e compositor Marcelo Camelo, do Los Hermanos. Música qual deu o nome para esse texto.

           Se há algo você tirar desse texto, vai de você leitor. Eu só penso que, se um dia encontrar um amor que seja tão intransponível como o deles, serei um cara feliz.

           E assim finalizo o último post do ano: Seja feliz.

T. Rodrigues.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Aqueles olhos verdes.

"Sabe, eu já não sei mais nada da semana passada, pois foi quando você chegou, que tudo começou. Começou a se confundir." (Trecho da música "Tudo Porquê" do Gabriel Elias)


Eu me lembro de acordar cedo, tomar um banho e sair. Chegar cedo no trabalho, de dar meu melhor e me dedicar sempre. Eu me lembro da forma que pegava no violão e dedilhava, dedilhava e dedilhava músicas inacabáveis de artistas variados, do inglês ao português, indo e voltando. Lembro-me de olhar no celular de cinco em cinco minutos pra procurar as ligações perdidas ou mensagens. E quando eu o abria, via o plano de fundo, e aquela atividade que normalmente demoraria 5 segundos se tornava minutos. Aqueles olhos verdes me impediam de fazer a maioria absoluta de meus afazeres diários.

Sinto saudade disso, confesso. E digo isso rindo, sinceramente. As vagas lembranças que agora correm na minha mente são um passado tão distante, que tudo que tenho na mente são boas memórias. Lembro-me do primeiro dia. Chegando na casa dela com a cara e a coragem, sendo a coragem milhões de vezes maior que o tamanho da cara. Era muito engraçado. A forma que eu cantava as músicas então, melhor ainda. Eu não conseguia terminar uma música! Era uma mania que eu tinha. O que acontecia na maioria das vezes (e isso eu descobriria muito tempo depois do fato ocorrido) era algo engraçado. Eu começava a música, procurava algo pra olhar, coisa normal... Mas eu acabava me concentrando naqueles olhos verdes, e dai vocês imaginam o resto.

Um dia desses sentei e li o livro que ganhei de presente. "Querido John". As frases grifadas me faziam arrepiar, toda vez que encontrava uma nova. Palavras como "parecia que nos conhecíamos a tempo" ou "eu sabia que queria ela desde a primeira vez que vi", tiveram um efeito em mim que nem sei descrever. A forma como o livro termina triste. Foi algo muito estranho também. Mas minha vida não é um livro. Eu só vivo uma grande história. Não minha, mas de um conjunto muito maior do que eu, o qual não posso representar, nem em música, nem em versos.

Mas esse texto não é sobre meu passado. É sobre a forma que eu me apego nas pequenas coisas. Esse é meu dilema. Às vezes, o cabelo, a roupa ou o salto alto, não me impressionam em nada. Às vezes, o que me impressiona mesmo são coisas como a música predileta, a forma como se porta em situações engraçadas e inesperadas, o timbre da voz... enfim, os pequenos detalhes. Era isso que eu amava nela (a garota que descrevi nos parágrafos anteriores).

Não era o fato de ela ser linda. Não mesmo. Não é soberba da minha parte, mas conheci várias modelos que se destacavam por ser lindas por fora e vazias por dentro. Aliás, a maioria é assim. Não pela beleza, isso não atrapalha a mulher. O reconhecimento adquirido pela beleza, e como a mulher o usa é o que tem grande peso na avaliação de seu caráter. Mas ela, sinceramente era diferente. Ela ria de coisas pequenas, desenhava respeitosamente (e sim, isso eu realmente amei quando descobri) e tinha uma facilidade enorme de fazer amigos. Nessa época, pelo que me lembro (se é que eu me lembro), ela nem gostava desse negócio de ser modelo.

Mas sabe o que mais me cativava? O olhar. Ela tinha olhos verdes, ok. Muita gente tem olhos verdes ou azuis. Mas não era a cor dos olhos. Era como, quando e a duração daquele olhar. A forma mais aproximada pra descrever seria algo do tipo "olhar nos olhos de sua mãe".

Não, eu não sou afim da minha mãe.

Imagino que é mais pelo lado "agora eu sei por que meu pai se apaixonou por ela".

Isso que fazia a diferença. A forma que eu me encontrava em encontrar aquele olhar. Aquele sentimento de segurança. Eu me lembro disso, daqueles olhos verdes. De penitência, de sabor, de respeito. Aqueles olhos verdes de encontro.

E eu fico feliz em lembrar de como eu era, o que eu era antes de conhecê-la. Alguém amargurado, que carregava a bagagem do relacionamento anterior nas costas toda vez que alguém olhava pra mim com algum interesse além de amizade. Carregava o medo.

Ela me ensinou que as pessoas não são aquilo que passaram, aquilo que vivem ou as aparências que possuem. As pessoas são aquilo que você conhece quando retira as máscaras de seus rostos. O que tem por baixo das fachadas é o que conta.

E são esses pequenos detalhes que desejo a vocês, meus amigos, que se apeguem. O os olhos verdes são apenas uma metáfora. Se apeguem nos pequenos detalhes, por são esses que valem a pena. Nas atitudes pequenas. São elas que contam, as atitudes. Esqueçam as palavras. Não ame alguém pelo número de vezes que esse alguém te diz "eu te amo". Ame esse alguém pela quantidade de vezes que o "eu te amo" é demonstrado.

Encontrem seus olhos verdes, e se cativem por eles. É o que desejo pra vocês, por que no final de tudo, quando olho pra trás, vejo que valeu a pena. Não é o modo como termina que conta, é o modo que se desenvolve. E sinceramente, não me arrependo de nada. Sinto-me grato de ter vivido momentos tão únicos, com alguém tão especial.

Aqueles olhos verdes.
Apenas encontre-os, e deixe-se cativar por eles.

T. Rodrigues

(Escute Green Eyes do Colplay e descubra que eu não sou o único a pensar assim)