segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mon chef-d'oeuvre


"Morning Bouquet", pintura do francês Albert Guillou (1844-1926)

E então, quando terminei a pintura, larguei o pincel e me virei de costas. Por alguns segundos esperei, até que meus pulmões se estabilizassem, e eu me fizesse preparado o suficiente para encarar meu feito. No quadro, de tons gentis, havia uma mulher. Coisa bela, pintura feliz, rosto taxado de rosa e olhos cor de águas claras. Meu eu concebia a ideia da beleza que havia sobre a tela, me fazia contente em saber que a teria pintado, minha obra prima, mon chef-d'oeuvre. Eu lá, a percebê-la por detrás dos olhos. Numa tomada de atitude, me viro para vê-la, e então, como quem se exaspera na vitória, percebi que algo me atordoava. Pintura magistral já não parecia para mim. A bela, já não mais. Minhas pinceladas pareciam tortas, meus traços pareciam incompletos, minha tinta parecia velha. No entanto, poderia percebê-la impecável, magistral de fato – mas não. Algo fazia ver que sua beleza era menos bela, intrínseca, indiferente. Seus olhos estavam lá a me encarar e quanto mais os encarava, mais parecia a mulher me perceber. Como numa bruxaria de Cipriano, percebi que a mulher envelhecia. Quanto mais me debatia em sua perfeição truncada, mais ela envelhecia e não havia algo que pudesse fazer. Enquanto se deteriorava, vi meu pincel envelhecer também, e assim também se sucedeu com minha palheta. Meus braços congelavam, de meus olhos lágrimas saíram. E quando as percebi, tentei limpá-las com minhas mãos, e me surpreendi em vê-las secas, envelhecidas também. Assustado, recuei. Quando levantei meus olhos ao espelho, me vi velho, com olhos domados pela mesmice, pelo medo. Lembrei-me então de memórias que já não me recordava. Momentos que vivi sem ter vivido e guerras que travei sem ter vencido. Eu vi a beleza da vida se tornar antiga em minha mente. Quando voltei a olhar o quadro, vi a mulher, agora jovem novamente. Meu ser sabia a verdade. Não era a beleza de meus quadros que se esvaía. Era eu.

T.Rodrigues

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Continue batendo



Coração, meu velho amigo, não me deixe na mão agora. Sua luta se transformou em medo, e esse medo há de ficar para trás. Estou correndo e preciso que você continue a bater, agora mais do que nunca. Apenas continue, eu te peço, apenas mais um pouco. Meus joelhos estão cansados e não sinto mais o sangue correr nas mãos. Meus pulmões são jovens, mas eu preciso de você para continuar.

Apenas bata: não é isso que você quer? Apenas bata, há razões demais para desistir e eu preciso que você as contrarie. Confio em você para continuar, preciso de você para seguir. Minha cabeça grita para seguir em frente, mas eu preciso de uma razão para cruzar essa linha. Preciso me sentir vivo para querer a vida.

Não me desaponte agora. Sinto você desistindo, parando devagar. Apenas mais uns passos, você não é tão fraco. Meu corpo é forte, mas dependo de você para sobreviver. Pois eu tenho fé de que ainda tenho vitórias para conquistar, posso senti-las em meus lábios, em meu rosto e em minha alma.

Coração, meu velho amigo, você bateria por mim uma vez mais?

T.Rodrigues

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhar de criança

A chuva está dentro do caminhão pipa,
o fogo está dentro do fogão.
A pipa voa dentro da cozinha,
céu é o que a gente vê do chão.

Cadeira é onde eu sento,
Cadeia é onde meu tio mora,
Cadela é o bicho do Pedrinho,
Caxola é onde guardo minha memória.

Se eu esquentar o ovo, a galinha nasce?
E se eu desmonto o relógio, o tempo para?

T.Rodrigues


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gosto da chuva

Ela é como a fragrância do gosto da chuva
Permanecendo nos meus sentidos, implacável, incansável
Escorregando e mergulhando como gotas maléficas
Invadindo meu céu límpido
E eu procuro pelo sinal de uma pequena nuvem qualquer
Dividida e desintegrada no chão
Respingando, rachando como a pele da minha língua sedenta
Seca como as veias de um coração sem amor
E não posso dizer como ela se sente longe de mim
Como uma camada a ser retirada
Esculpida em formas deslumbrantes e padrões da minha alma
Carregada como sonhos à lugares onde meu corpo não pode chegar
E eu espero pelo sinal

T.Rodrigues