segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

29 dias.

Sorrisos para algumas pessoas são como relâmpagos numa tempestade. Eles caem com frequência, rápidos, e as vezes meio que automáticos. Para outras pessoas, sorrisos são como arco-íris depois de um dia de chuva. Elas precisam de todo um contexto para o fazer, e se a sintonia for perfeita, ele acontece rápido, não tão discreto, porém lindo.

Há tantas coisas nesse mundo que precisam de tempo para se tornarem inesquecíveis. Pense bem, o atraso desses prazeres os tornam melhores em ser conquistados. A lua é um exemplo perfeito. Seu período sinódico (intervalo que leva a se repetir uma fase) é uma coisa simples, porém magnífica. São aprox. 29 dias entre duas luas cheias. Veja bem: Se a lua fosse cheia sempre, seria linda todos os dias, ou seria normal de mais pra ser especial?

Dentre todas as coisas deste mundo, penso que a coisa mais linda a se guardar, são os sorrisos. Eles representam milhões de coisas, dizem coisas diferentes, e cada pessoa tem vários tipos. Não me aventurarei no assunto "tipos de sorriso", e peço apenas que você leitor, preste atenção nesse detalhe: O melhor a se guardar, é seu sorriso.

Conheço pessoas que guardam abraços. Pessoas que guardam canções, e até arrisco dizer que conheço gente que coleciona rancores. Mas de todas elas, e isso eu lhes afirmo amigos: o tipo mais raro é o que coleciona sorrisos.

São os mais lindos de se assistir.

Ver um amigo após tempos sem se falar, sorrir pra alguém que você não conhece, ser aquele que recebe o sorriso. São momentos que parecem vir em câmera lenta. Isso que acontece ao nascer de um sorriso: Se recebe um presente incondicional, inevitavelmente correspondido, irreversivelmente contagioso.

Agora penso, de todas as coisas que posso guardar, por que não guardar sorrisos? Digo, posso guardar quase tudo. Posso guardar mágoas passadas, posso fazer caretas de sorrisos que não recebi, posso ser rancoroso com meu futuro e minhas escolhas, mas por que não posso guardar sorrisos pra todos esses momentos também? É o melhor que tenho.

Não digo pra você sair distribuindo alguns. A única coisa que alguém deve distribuir irrevogavelmente é a educação. Quanto a sorrisos, associe-os as fases da lua: Dê tempo para seu espectador saber o que o espera. Faça ele se orgulhar de esperar 29 dias por outro sorriso.

Mas não deixe de o fazer. Quem espera 29 dias por uma lua cheia não espera um céu nublado, não estrague as expectativas de alguém que espera por você.

Espere pelos sorrisos que valem os seus.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Depois dos Bastidores

"O palco de Annandale não é grande, e nem muito famoso, mas respeitado. Qualquer músico que esteja começando, queria tocar nesse lugar. As vezes imagino que até os músicos que estão a tempos na estrada deveriam tocar por lá. É tão pequeno, que a apresentação vira quase particular. É sensacional. E ninguém, absolutamente ninguém está livre do frio na barriga que dá antes de subir lá. Ou na maioria dos outros palcos.

Um homem, um violão, um repertório e várias mentiras a serem contadas. Isso define basicamente o que é um cantor antes do show. É algo que imagino ser brutal. Vender mentiras. Digo, obviamente, nem todas as músicas são mentiras, e algumas delas no momento não são, mas um dia se tornarão. Hoje você canta sobre amor, talvez amanhã sobre ódio, e uma coisa é fato: Seu ponto de vista de hoje não será o de amanhã. Ele vai mudar.

Colocar o violão nas mãos, é como uma segunda vida. É como se o soldado estivesse limpando a arma que vai usar na guerra, como se o piloto de carros entrasse na máquina da corrida, como se o garoto fosse dar seu primeiro beijo naquela garotinha. É um passo gigante, e precisa-se de coragem.

Todos em Annadale esperam por ele subir, e fazer um ótimo show. Cantar sobre amores, sobre vidas arruinadas, sobre felicidade única e sobre outros assuntos assim, é o que eles esperam. Pagaram para ouvir a mesma coisa que todos cantam: mentiras.

"Se todos cantam o mesmo, qual é a mentira que vocês querem ouvir?" Ele pensa assim. Mas suas músicas não são nada casuais. Ele não espera a aceitação do público. Ele espera ser ouvido: e isso meus caros, é algo com propósito. É lindo.

As músicas que falam de amizade verdadeira, e como acabam, de atitudes estúpidas que todos cometem, e como continuam cometendo, são os assuntos. Como somos estúpidos em não desejar a mudança de nossos atos, das músicas que escutamos, dos shows que pagamos pra ver. Das mentiras que compramos todos os dias. Esses eram os refrões que foram tocados nessa noite.

Quase ninguém comprou a idéia naquele dia em Annandale. Mas foi um ótimo show. Frases como "é por isso que ainda não desisti" ou "somos capazes de fazer muito mais do que as estatísticas no jornal dizem" ecoaram na cabeça de quem esteve lá. Isso fez a diferença.

Eles diziam que não dava pra mudar o mundo, que tentar mudá-lo só o faria ficar pior. Mas aquele artista, naquele show, fez diferente. Botou vários sorrisos em vários rostos, e eles cultivaram outros mais, e logo era uma epidemia de conteúdo em Annadale.

Eu estava lá, e mudei meu jeito de pensar. Sei que posso encontrar outras casas de shows, outros lugares em que posso escutar conteúdo, mas Annandale nunca sairá da minha mente, por que naquele dia, aprendi quais são as mentiras que não posso mais comercializar, e quais mensagens eu passo nas minhas canções.

É por isso que hoje toco aqui, em Annadale, e pretendo cantar cultura, mostrar conteúdo. Por que eu, posso ser único sendo um só. E é por isso que não desisti ainda.

A, e o artista que tocou aquela noite, seu nome é Newton Faulkner."

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Entre Braços e Asas.

Estava entre irmãos, era verdade, mas isso não diminuía um centímetro se quer da altura a que estava. Ele olhava pra baixo sem saber o que fazer, nunca tinha chegado tão longe. Primeiro seus irmãos, agora ele, e era algo que tinha que ser feito.

Pra quem assiste é fácil. É só se jogar, que o vento faz o resto. Obviamente não é tão fácil assim, e ele sabia disso, e isso o deixava completamente nervoso e amedrontado. Ele podia se negar a pular, poderia sim. Mas isso mostraria sua covardia e estamparia em seu rosto a derrota. E ele não era assim.

Se perguntava: "é a hora certa? digo, tudo tem seu tempo, certo?" E realmente tudo leva tempo pra evoluir. Suas asas eram pequenas, e seu corpo também. Estava a uma distância do chão cerca de 100 vezes maior do que seu tamanho, e morar no alto de um pinheiro não ajudava em nada em matéria de auto-estima. Voar era algo difícil de se aprender.

Dois passos pra beirada e ele olha lá em baixo. Aquela vertigem que dá dor de cabeça atacou ele por um momento ou dois, mas ele voltou a si. Era realmente alto. Seus irmãos pulavam, davam piruetas no ar, faziam espirais com seus rastros ao vento, e era magnífico de assistir "o primeiro vôo". Haveria algo mais bonito de se ver? É como um bebê engatinhando, dando seu primeiro passo, sua primeira palavra, dizendo "mamãe"... Era belo de se ver, com certeza. Mas realizar era difícil. Voar era uma arte inexplorada e fascinante.

Promessas eram feitas, ele olhava para trás. Todos ali, esperando o salto. E ele esperando a coragem para fazê-lo. E então ele a encontra. Chega na beira, não olha para baixo. Abre suas asas e respira fundo, e então se joga.

Por alguns momentos ele sentia apenas a queda, o vento cortar as linhas de seu corpo. Era tempo de adaptar suas asas a velocidade em que caia. Aquele desespero súbito vinha e invadia, mas ele estava aprendendo a respirar, aprendendo a "engatinhar". Quando suas asas estão totalmente abertas (e acredite meu amigo, era bem perto do chão), ele simplesmente arremete, e sobe novamente. O impulso deixado pela gravidade faz com que ele suba alto.

Um sorriso invade o rosto, ele canta alegre. A parte mais difícil tinha passado, e ele estava feliz. Saltar era o principal, e abrir as asas era necessário. Mas agora era hora de aprender a batê-las. Primeiro ele tenta fazer numa velocidade absurda, batendo depressa, isso faz com que o vento não passe pelas asas e ele começa a cair novamente. Vendo que sua estratégia não era eficaz, ele muda pra um "plano B", e bate devagar. Agora, ele dá pequenos saltos no ar, caindo e subindo, caindo e subindo, até achar a velocidade certa para bater, e assim aprender a estabilizar seu vôo.

Agora sim ele podia voar! Podia voltar a seu ninho, descer até o chão, dar piruetas e tudo mais que quisesse. Era a mágica do voar. Abrir e fechá-las em teoria é fácil. Mas nem por isso o passarinho deixa de cair ao tentar, e muito menos deixa de voar ao conseguir. Era perfeito de se assistir.

Explorar novos horizontes, ver o lago do alto do céu. Acompanhar o sol em sua jornada diária, seu nascer e se pôr, ver a lua invadir a terra e apaixonar-se com o mar a cada noite. Ondas paralelas e outros pássaros. Ver a multidão, e não escutar o barulho, estar acima de seus problemas. Era uma vida nova, vida linda, essa de passarinho.

Mas afinal, qual é a diferença entre braços e asas?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Céu de Baunilha

6:45 piscando, junto com um alarme extremamente irritante. Então eu acordei. Peguei minha passagem e poucas roupas e coloquei na mala.

"Nenhuma bagagem de mão, senhor", e realmente não tinha nada pra levar quando o rapaz do check-in perguntou pra mim. As únicas coisas que levava naquela viagem era um coração partido e uma vontade de ir embora concretizada. Um tocador de mp3 com John Mayer em 2 horas de viagem era mais do que suficiente para eu ter uma boa distração. Nada que Battle Studies não curasse.

Andando por aquele corredor estreito que dá até a plataforma, avistei uma mulher. Parecia ter vinte e poucos, não mais que 1,70 de altura, era morena de cabelos grandes, usava um vestido preto e tinha um sorriso arbitrário. Ela podia conseguir duas passagens pra lua e um ano de compras grátis na Calvin Klein se apenas chegasse na loja e dissesse "olá, bom dia!", com uma arcada dentária daquelas. Foi o que entendi dela antes de analisá-la melhor.

Entrando no avião confiro os assentos e advinha? Se você está pensando que a moça de sorriso escravizador sentou do meu lado, pensou errado. Ela sentou no corredor, eu sentei na janela. Parecia que ela tinha medo de voar, ou algo do tipo. Achei estranho, mas prossegui com o she is an assassin and she have a job to do tocando em meus ouvidos. E não era difícil de se distrair propositalmente, graças ao casal de chineses que tinha sentado ao meu lado. Pareciam ser completamente infelizes, ao menos essa era a impressão que deixavam, brigando 8 horas seguidas com pontapés e tiros de bazuca num voo que de 2 horas. No intervalo da luta pensei em fazer Kung-fu.

Mas me pego pensando naquela senhorita, a morena. Eu vi nela algo que vi em mim, a algum tempo atrás. Nunca fui de afeições muito belas, nem de sorriso escravizador, mas incrivelmente, sempre deixava uma boa impressão a meu respeito, em todos os lugares que ia. Não era de se orgulhar disso, é essencial que uma pessoa tenha dois lados. Não duas caras, dois lados. Ninguém pode ser perfeito o tempo todo. E eu era profissional nesse erro.

Observando ela durante a viagem, pude presumir que ela era desse tipo. Digo, não conhecia a personalidade dela, mas poderia dizer com certeza que onde quer que ela fosse, seria bem recebida. Claro que eu não estou falando de uma daquelas reuniões de loiras estilo Barbie-Malibu, mas vocês devem ter entendido.

"Caramba, não coloquei o aparelho pra carregar" foi o que consegui pensar quando a música parou de tocar nos meus ouvidos, quando consequentemente peguei ele do bolso e tive certeza que minha teoria sobre conspirações mp3-záticas estavam certas. Claro que fiquei muito mais assustado quando olhei pro lado e vi que o casal de olhos-puxados tinha sumido, a morena estava sentada na poltrona a minha esquerda, e estava olhando fixamente para mim, sem piscar. Detalhes.

"Olá Bruno" foi o que ela disse quando tirei o fone dos ouvidos, e a sua voz era suave, mas era também forte, daquelas que te convencem mesmo antes de ter algo pra convencer, sabe? A não ser que ela pudesse saltar 3 metros numa fração de segundos, alguma coisa ali estava muito, muito errada. Mas ela quebrou totalmente minha linha de pensamentos quando continuou aquele monólogo sensacional sobre minha vida, sem ao menos eu conhecê-la, e com aquela voz de julgamento.

-Quem você pensa que é? - Ela disse pra mim, e continuou - Você pode sair desse lugar, pode desistir de tudo, mas ainda sim, este lugar e essas pessoas estarão para sempre com você, e não dá pra fugir disso.

Fiquei alarmado, óbvio. Agora eu sabia definitivamente que tinha algo errado. Era certeza. Mas retruquei com um sotaque baiano perfeito e cara de quem não sabe de nada.

-De que você está falando senhorita? Acho que está me confundindo com alguém, - não bastava ela saber meu nome e o que estava fazendo, agora ela sabia que eu era um completo idiota, e continuei - me desculpe, vou me sentar em outro lugar.

Isso foi o que ouvi antes do "cala a merda da boca e apenas escute" mais bonito e bem dado que escutei em toda minha vida.

- Não há como fugir Bruno. Você sabe que não. Sabe que quando chegar em seu destino, vai sentir um pedaço de você ficando pra trás. E quando se adaptar, vai cometer os mesmos erros, acertar os mesmos acertos, e quando se der por conta vai querer fugir novamente. - essa foi a hora em que pensei que fugir pra sempre seria perfeito, mas ela prosseguiu com seu discurso magnífico - não preciso dizer que seu coração vai se quebrar novamente, certo?

Não sou um cara sensível. Não pense que esse argumento foi algo do tipo "novela mexicana" e me atingiu. Por outro lado, sou calculista e sempre penso em todas as probabilidades. Olhando pelo ponto de vista da morena que gostava de discursar para pessoas completamente estranhas, percebi que ela estava certa. E o falatório continuou, afinal, ela é mulher ora bolas. Estão sempre certas, e sempre falam demais. Ela suspirou mais uma vez antes de falar algo.

- Eu sei que você me entende, por que eu entendo você... e me desculpe a falta de modos! Meu nome é Bruno, muito prazer.

Eu definitivamente tinha ingerido drogas sem saber.

Ferrou tudo. Ou ela era o terrível "homem que parecia mulher mais bonito que já vi em toda minha vida", ou ela era eu. Tinha que ser a segunda alternativa. Eu esperava que fosse.

Quando ela disse isso, fiquei paralisado, óbvio. Percebi que ela vestia as mesmas roupas que eu. Uma camisa social xadreza, uma calça jeans e tênis (claro que ela vestia esse modelito na versão feminina), e qual era a chance de ela ter trocado de roupa durante aquele salto estilo Usain Bolt que deu mais cedo? Agora tudo fazia sentido em não fazer sentido nenhum.

Mas o que me deu certeza dessa teoria maluca mesmo, era o fato de ter olhado pra janela do avião, e constatar que tínhamos feito baliza em um-lugar-qualquer-no-meio-do-céu-de-baunilha.

Caramba, eu sentia saudade mesmo daquele casal de chineses que estavam do meu lado. Nessa hora iria pra China fácil estudar Kung-fu.

Não sei se foi a voz dela, o fato de estar no maior pesadelo do mundo, ou qualquer um dos fatos que não citei aqui, mas eu estava convencido de que ela estava certa, e eu não deveria fugir de meus problemas. Deveria encará-los, afinal, se me mudasse, os encontraria da mesma forma, só que em um lugar novo.

E foi ai que ela me perguntou a parte essencial:

- Sabendo disso, sabendo que estou certa, e que sou parte de você, qual é sua escolha? Vamos fugir desse lugar mesmo? Você vai fugir de tudo sem ao menos tentar resolver seus problemas? Eu sinceramente esperava mais de você Bruno! Enfim. Meus argumentos já estão bem claros. Não preciso mais discursar - e levantou sensacionalmente da cadeira, sem fazer mais ruído do que um casal de formigas faz quando discute sobre contas de água - mas agora é com você. Decida-se o quanto antes. Não sou nada paciente.

Daí o celular dela tocou. Uma música muito familiar.

6:45 piscando, junto com um alarme extremamente irritante. Então eu acordei.

T. Rodrigues