domingo, 1 de maio de 2016

Fluxo

Todas as coisas devem acabar.
Para que deem lugar a novas coisas
Para que abram espaço naquele velho armário de mudança
Que a gente insiste em guardar por conveniência.

Coisas que ainda não fizemos, mas haveremos de fazer ainda.
Coisas que dizemos, mas não poderíamos dizer ainda.
Todas elas fazem parte de um grande mar de incertezas
E quando a cama vira depósito de promessas
Daquele amanhã que seria diferente
Se dorme o sono dos justos não tão imaculados
Vazios do outro e cheios de si.
Mas certos do dia que ainda haverá de nascer.

Há ainda os que cultuam o deus do deixar-pra-trás
Mas não se deve dar valor demais ao desapego
Desapague-se desse mantra.
A vida dá, a vida toma
E ainda continuamos réus de um destino que não julga
Mas que faz de toda testemunha seu juiz.

Pois um dia a alma se aquieta do afago ou da falta
Um dia as folhas caem para dar lugar a novas
Sinta-se parte de um mundo que substitui

Toda velha história por uma ainda não contada.

T. Rodrigues

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Seguindo em frente

Vida segue
Deixe tua culpa, tua gana, teu medo
Não negue
Deixe memória, afago, teu cheiro
Considere
Deixe história, aprendizado, teu zelo
Espere
Deixe o tempo te levar ao começo.

Segue.

T. Rodrigues

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Inabilidade

Com o tempo, fui esquecendo como fazer as coisas. Tenho percebido minha perda de habilidade em viver com pessoas e minha completa impaciência pelo social, vou envelhecendo e esquecendo como as relações funcionam. Me esqueço do básico: do cumprimento, do parabéns, da despedida, todos aqueles ritos que preenchemos em nossas relações todos os dias. Afinal, as rugas trazem questionamentos que nossa ignorância quase infantil não se daria ao trabalho de pensar. Os rituais do "oi", "olá, como vai você" e "mande notícias" são vívidos em relações de superfície pura mas profundidade pútrida. Perguntamos ao nosso maior inimigo se ele "está bem" e a nossos meros colegas, "como vai a família".

A falta de habilidade dá lugar a uma reclusão característica. Você começa a fazer esforço para evitar contato, e nossa modernidade-pós-moderna nos fornece todo o aparato. Ela quase investe em menos relações de contato. Se eu precisar de banco, tenho a internet. Eu ligo para que tragam comida. Minha luz está no débito automático. Converso com meu orientador da graduação por e-mail. Já não consigo mais saber a linha de onde a facilidade ao acesso se confundiu com a reserva desmedida.

E assim vou destruindo aos poucos as relações que construí quando mais jovem, mas não me sinto culpado. Até desejaria que a metamorfose de uns se parecesse com a minha.

T, Rodrigues

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Rugas

Penso que sinto e sei o que penso
Numa redoma de olhares
Não é fácil entender o recado
O espelho é complicado demais
Finjo que vejo, vejo que finjo
E nada além de interrogações barbadas
O olhar cansado diz mais da alma
A alma cansada reflete no olhar
A boca seca relata a falta
A falta que faz seca a boca
Em um passo volto no tempo
O senhor tempo passeia sem voltar
Encontro tudo em linhas paralelas
Combinam com as rugas do rosto
Pés de galinha são as memórias
memórias são pés de muitos animais
Os que rugem são os de dentro
Agora só o olhar expõe a fera domada
Pelo tempo, pelos versos, pelos tais.

T. Rodrigues

sábado, 2 de novembro de 2013

Outubro

- Vamos lá, termine o que começou - foi o que ouvi, quando as luzes se acenderam. Agora éramos três, num quarto de hotel - não se faça de idiota, pra quê protelar o necessário?
- Não tenho certeza... é mesmo necessário? Veja, talvez ele ainda tenha esperança - disse essas palavras olhando para o chão, um senhor nu, amarrado por cordas de ginástica. Ele tinha hematomas espalhados pelo corpo e estava inconsciente devido à agressão de alguns minutos atrás. Era madrugada de uma sexta feira de outubro, quando esbravejei, - calada! Preste atenção... ele mal respira agora.

Estava acompanhando de uma mulher. Ela era alta, cabelos compridos, olhos e boca vermelhos, estava em um vestido preto, longo, impecável. Para cada passo que dava, usava um flerte diferente e parecia que seu corpo falava. Apesar de toda sensualidade e persuasão, era difícil compreendê-la. Naquela hora, ela me incentivava a abandonar o homem ali, naquele chão frio do hotel. A noite foi se arrastando enquanto dialogávamos bebendo um uísque antigo, recomendado por ela, e assistindo o estado daquele senhor no chão. Eu estava desesperado por abandonar alguém assim, como se fosse lixo. Eu não queria.

- Você se importa? - a mulher me perguntou depois de um longo período de silêncio.
- O quê? Com esse homem?
- Claro, de quem estaríamos falando?
- Você poderia estar falando de forma abstrata. Apenas se eu me importo.
- Mas não é que você é perspicaz? - soltou uma risada e bebeu de seu copo.
- Diga logo onde você quer chegar. - estava cansado e agitado demais para jogar esse jogo.

Durante a pausa entre meu pedido e a resposta da mulher, comecei a me indagar algumas coisas. Eu estava ali, presenciando um homem amordaçado no chão e não fazia nada. Comecei a tentar me recordar de como chegarmos aqui, o que tinha acontecido? Não conseguia me lembrar. Em minha cabeça haviam apenas clarões e flashes do que poderia ter sido minha chegada ao hotel. Mas de uma coisa eu estava certo: cheguei sozinho.

Eu não poderia simplesmente acusá-la do crime. Nossa conversa foi se seguindo e com o passar do tempo fui despertando para a realidade, a cada segundo me fazia mais certo de que, na verdade, era a mulher que havia amordaçado aquele senhor ao chão. Quis jogá-la contra a parede.

- Você vai precisar da minha ajuda pra terminar o que começou? - perguntei à sedutora.
- Em breve ele morrerá. Quando isso acontecer, você não vai conseguir se livrar dele sozinho. Vai precisar da minha ajuda, minha mão pode ser bem útil pra você. - e sorria um sorriso sádico enquanto dizia essas palavras. Não me segurei, o desespero superou a frieza e bradei na frente dela.
- Mas foi você que o matou!
- Não, não fui. Eu apenas o ajudei. Você chegou aqui sozinho, mas nesse quarto o criminoso é você.
- Como, se eu não me lembro de nada?
- Você não se lembrará enquanto não assumir seu ato.

Senti o peso de todas as incoerências, dúvidas e incertezas que há no mundo. Por um segundo, desesperado, me dei conta de que quem agrediu aquele senhor que parecia inofensivo, fui eu. Ainda mais inconsciente do que havia feito, pedi ajuda da sedutora: - vamos colocá-lo no porta malas do meu carro, está parado na porta do hotel.

Naquela madrugada não havia funcionários no corredor e aparentemente, na rua também não. Enquanto carregávamos o corpo - ainda vivo - daquele senhor, fomos passando pelas portas dos quartos e seguimos para o salão de entrada. Havia pouca iluminação, passamos pela porta e chegamos ao carro. Quando o coloquei no porta malas, olhei para a mulher. Ela continuava sádica. Foi quando eu me lembrei de tudo. 

O senhor estava comigo no quarto do hotel (eu fui lá encontrá-lo) e me aconselhando sobre algo. Era uma espécie de sábio. Enquanto conversávamos, me enojei de suas falas e não o entendia. Começamos a discutir mais alto, nos exaltando, quando por fim me tornei incontrolável. Não me recordo da agressão, é como se tivesse acordado após o infame terminar. A mulher parecia ter presenciado tudo, de longe, sussurrando coisas absurdas em meu ouvido.

- Agora eu me lembro. - disse em lágrimas.
- Solte-o agora e feche o porta malas. Eu assumo daqui. - respondeu a mulher, ignorando minhas palavras. Pela primeira vez, ela estava séria.
- E o que você fará com ele? 
- Ele quem? - riu.

Olhei para o porta malas vazio. O senhor desapareceu bem debaixo dos meus olhos. Nesse dia, a mulher chamada loucura foi minha cúmplice. Me fez perceber que eu não matei o sentido... ele nunca havia existido. Me encontrava agora sozinho, na pior das companhias.

Não se sinta tão indiferente, todos somos loucos, só depende do ponto de vista.


T. Rodrigues

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Duas notas

Quando comecei, era uma nota só, sozinha. Mal sabia do problema que vinha. Decidi fazer uma música, e nela depositei toda minha dedicação. Escolhi um campo harmônico e comecei a criação. Nota pra cá, nota pra lá, e a música nada de sair. Tentei criar a letra, mas não encontrava as palavras certas. Tentei subir um tom, mas meu timbre não deixava. Minhas habilidades em música são bem limitadas. Em um determinado momento, pensei em desistir, abandonar a música e não mais me iludir. Meus versos formavam frases e minhas frases um parágrafo, extenso e nada delicado. A música simplesmente não saía. Pensei em atirar o violão pela janela, de tanta raiva que me deu. De nada adiantaria, pois em versos simples ou complexos, o problema era eu. Uma vez mais, pensei em desistir, ouvir a música dos outros e simplesmente cantarolar minhas idéias. Como mágica, uma segunda nota apareceu, para somar com a minha. Uma nota simples, porém muito bela, que facilitava minha rima. Ela me disse baixinho: - Não fique triste, coração. Perceba que tens um texto e não mais uma canção. Agora fico contente, mesmo que alguns dos versos não rimem. Sem melodia nenhuma música sobrevive. Já um texto não precisa de refrão, muito menos de regras ou de uma perfeita orientação. E agora tenho uma nova nota pra me animar, pra me fazer companhia quando a criatividade falhar. Nas palavras dela me senti satisfeito e fui viver. Meu texto de duas notas era o que eu tinha pra dizer.

T.Rodrigues



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Poesia por encomenda

Se me pedissem para falar sobre o amor
gritaria para todos:
 “Esse homem está louco!”
e me poria a correr sem parar.

E se perguntassem
 “quem corre assim, sem saber pra onde vai?”
como quem ginga, mas não cai
olharia para trás e falaria esses versos simples:

A paixão é a loucura dos povos,
e do apocalipse, a proclamação.
É a sentença dos olhos,
fim de vontade, de vida e de verão.

Se puder, corra!
Se te alcançar, resista!
e se vier, morra
e se vingar, desista.

T.Rodrigues

sábado, 9 de março de 2013

Sereia do Rio

No Rio de Janeiro se ouvia a história de Ruy: rapaz de vinte e poucos anos que se rendeu as façanhas do coração. Por uma sereia de canto bonito, chamada Maria, se apaixonou, e quis saber onde essa história daria. Maria parecia carregar um coração meio partido, mas Ruy queria ser seu doutor. Meus amigos, apenas um tolo do nível mais primal acreditaria que esse romance daria certo, e Ruy era mestrando em tolice. Um dia, passando por Ipanema pude ver um dos capítulos dessa história de masoquismo romancista. A sereia não sabia de nada, e em um dia qualquer de Março, Ruy fez o papel do Pierrot apaixonado.

Da beira da praia ele se declarou, e Maria, que veio à superfície relutante, permanecia atônita. Por alguns momentos poderíamos dizer que a notícia tinha a surpreendido mais do que ele esperava, mas talvez isso não fosse verdade. Naquele dia, ela era uma, mas parecia falar por dois. Estava sozinha, mas parecia acompanhada.

A fascinação dele por ela não era tão complicada de se explicar (talvez não fosse preciso), mas ela parecia querer que fosse. Maria argumentava e dizia “para você é fácil falar, você não sabe como eu me sinto. Eu preciso me fazer feliz agora. Eu só preciso... de ninguém além de mim.”, e essas palavras soavam como seu ultimato. Ruy quase clamava, dizia a verdade, gritava a seus ouvidos, “você é mais do que pensa ser!”, e ela negava. Por mais que Ruy tentasse convencê-la do contrário, ela não cedia.

As negações continuaram por alguns momentos. As palavras dele pareciam não chegar aos ouvidos dela, ela parecia ouvir, mas não escutava. O discurso parecia se perder em algum lugar entre seus ouvidos e seu coração: o que ele se esforçava para dizer parecia não tocá-la.

Insistindo, o diálogo se estendeu por mais algum tempo, até que Ruy percebeu a triste verdade: ela estava imersa no oceano que foi sua última decepção. Tão fundo, tão ancorada, que parecia não poder subir à superfície sem que a pressão (a do ar, não a da vida) não a fizesse mal. Ruy só queria pular na água e tirá-la de lá. Mostrá-la a superfície. Na terra havia passarinhos cantando, o sol era amarelo e brilhava a luz do dia. No mar de sua antiga decepção, só havia o silêncio. Na terra, Maria encontraria paz, e a paz era uma realidade bem diferente da que ela se acostumara no fundo do mar.

Ruy, então, dos males o pior. Ele, com seu discurso pagão, ameaçara sua vida azul, azul marinho, quase preta de tão fundo. O que Maria parecia não entender era que Ruy tentava lhe salvar daquela vida a cem metros abaixo da superfície. Maria era uma sereia que não tinha decidido se queria viver na terra ou na água. Quem a via de longe, poderia dizer com clareza de ideias: ela queria viver na terra. Mas Maria se convenceu que sua felicidade estava no mar, e muitos desejavam tirá-la de lá, mas poucos pareciam querer isso ao ponto de se arriscarem a pular no mar para resgatá-la. Não posso dizer se Ruy foi o primeiro, mas a verdade é, que da última vez que topei com Ruy, o ouvi dizer “desse mar não volto sem ela!”, e pôs-se a nadar para o mar aberto.


T.Rodrigues

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sereno

Deito-me no banco da universidade e assisto as nuvens passando, sem a menor preocupação com as pessoas ao meu redor, ou com meus afazeres acadêmicos. Um breve lapso de raciocínio invade minha mente. No momento as nuvens se cruzavam numa velocidade incrível, os pássaros seguiam seu trabalho e o sol se escondia atrás de uma camada espessa de chuva. O vento ficou frio de um jeito que você sabe: a chuva está para chegar. Quem sabe até uma tempestade. Logo após minha observação, a primeira gota - seguida por inúmeras outras - toca minha roupa, e a primeira sensação do molhado chega a minha compreensão. Eu aqui, à companhia do lápis, sem saber se continuo a deixar o papel se molhar ou se volto para um lugar seco. Algo dentro de mim grita para ficar na chuva, algo que está incomodado com o mundo. Incomodado com as pessoas e suas rotinas intermináveis, seus afazeres eternos e suas vidas tão ocupadas. Então me pergunto: afinal, quando foi que perdemos nossa sensibilidade? Quando foi que deixamos de observar a natureza e paramos de nos comover com o pôr do sol? Quando deixamos para trás o canto dos pássaros e a sensação de pisar descalço na grama? Um pensamento me leva a outro, quiçá pior que o precedente: quando é que aprenderemos que a vida é muito curta para não a observarmos passar despercebida ao nosso redor?

A pergunta se cala diante de mim. Percebo que a chuva passou e deixo essas questões para depois. Afinal, o caderno está seco, o lápis sobreviveu, foi um alarme falso. Está na hora de voltar à realidade cega.


T.Rodrigues

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mon chef-d'oeuvre


"Morning Bouquet", pintura do francês Albert Guillou (1844-1926)

E então, quando terminei a pintura, larguei o pincel e me virei de costas. Por alguns segundos esperei, até que meus pulmões se estabilizassem, e eu me fizesse preparado o suficiente para encarar meu feito. No quadro, de tons gentis, havia uma mulher. Coisa bela, pintura feliz, rosto taxado de rosa e olhos cor de águas claras. Meu eu concebia a ideia da beleza que havia sobre a tela, me fazia contente em saber que a teria pintado, minha obra prima, mon chef-d'oeuvre. Eu lá, a percebê-la por detrás dos olhos. Numa tomada de atitude, me viro para vê-la, e então, como quem se exaspera na vitória, percebi que algo me atordoava. Pintura magistral já não parecia para mim. A bela, já não mais. Minhas pinceladas pareciam tortas, meus traços pareciam incompletos, minha tinta parecia velha. No entanto, poderia percebê-la impecável, magistral de fato – mas não. Algo fazia ver que sua beleza era menos bela, intrínseca, indiferente. Seus olhos estavam lá a me encarar e quanto mais os encarava, mais parecia a mulher me perceber. Como numa bruxaria de Cipriano, percebi que a mulher envelhecia. Quanto mais me debatia em sua perfeição truncada, mais ela envelhecia e não havia algo que pudesse fazer. Enquanto se deteriorava, vi meu pincel envelhecer também, e assim também se sucedeu com minha palheta. Meus braços congelavam, de meus olhos lágrimas saíram. E quando as percebi, tentei limpá-las com minhas mãos, e me surpreendi em vê-las secas, envelhecidas também. Assustado, recuei. Quando levantei meus olhos ao espelho, me vi velho, com olhos domados pela mesmice, pelo medo. Lembrei-me então de memórias que já não me recordava. Momentos que vivi sem ter vivido e guerras que travei sem ter vencido. Eu vi a beleza da vida se tornar antiga em minha mente. Quando voltei a olhar o quadro, vi a mulher, agora jovem novamente. Meu ser sabia a verdade. Não era a beleza de meus quadros que se esvaía. Era eu.

T.Rodrigues

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Continue batendo



Coração, meu velho amigo, não me deixe na mão agora. Sua luta se transformou em medo, e esse medo há de ficar para trás. Estou correndo e preciso que você continue a bater, agora mais do que nunca. Apenas continue, eu te peço, apenas mais um pouco. Meus joelhos estão cansados e não sinto mais o sangue correr nas mãos. Meus pulmões são jovens, mas eu preciso de você para continuar.

Apenas bata: não é isso que você quer? Apenas bata, há razões demais para desistir e eu preciso que você as contrarie. Confio em você para continuar, preciso de você para seguir. Minha cabeça grita para seguir em frente, mas eu preciso de uma razão para cruzar essa linha. Preciso me sentir vivo para querer a vida.

Não me desaponte agora. Sinto você desistindo, parando devagar. Apenas mais uns passos, você não é tão fraco. Meu corpo é forte, mas dependo de você para sobreviver. Pois eu tenho fé de que ainda tenho vitórias para conquistar, posso senti-las em meus lábios, em meu rosto e em minha alma.

Coração, meu velho amigo, você bateria por mim uma vez mais?

T.Rodrigues

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhar de criança

A chuva está dentro do caminhão pipa,
o fogo está dentro do fogão.
A pipa voa dentro da cozinha,
céu é o que a gente vê do chão.

Cadeira é onde eu sento,
Cadeia é onde meu tio mora,
Cadela é o bicho do Pedrinho,
Caxola é onde guardo minha memória.

Se eu esquentar o ovo, a galinha nasce?
E se eu desmonto o relógio, o tempo para?

T.Rodrigues


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gosto da chuva

Ela é como a fragrância do gosto da chuva
Permanecendo nos meus sentidos, implacável, incansável
Escorregando e mergulhando como gotas maléficas
Invadindo meu céu límpido
E eu procuro pelo sinal de uma pequena nuvem qualquer
Dividida e desintegrada no chão
Respingando, rachando como a pele da minha língua sedenta
Seca como as veias de um coração sem amor
E não posso dizer como ela se sente longe de mim
Como uma camada a ser retirada
Esculpida em formas deslumbrantes e padrões da minha alma
Carregada como sonhos à lugares onde meu corpo não pode chegar
E eu espero pelo sinal

T.Rodrigues


domingo, 30 de setembro de 2012

Inverno de primavera

Se das tuas viagens pelo mundo retornar, bem meu, por favor não voltes para casa. A cama já não lembra teu perfume, teu lugar na mesa não existe mais. Se nos teus erros de menina quiser arrepender-se, bem meu, por favor, se contentes para lá. Já não ouço mais nossa música, teus sentidos já não são meus. Se um dia quiseres ter comigo, bem meu, por favor não venha. De suas mentiras já não me lembro, de suas verdades nunca ouvi falar. E se um dia a saudade bater, bem meu, negue-a. Não deixe que entre pela porta do coração. Pois aquelas flores de ipê da primavera passada há muito secaram, o samba nosso morreu, o gato fugiu e eu me perdi. Me perdi na poeira de um coração partido. Na miséria de um amor maltratado. No relato não dado, do cara do outro lado.

T.Rodrigues


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Internet e seus (mal-ben)efícios.

"Me manda seu telefone pelo facebook depois", "coloquei o convite no twitter lá ok?", "qualquer dúvida, me pergunta no ask"... as interações não são as mesmas de (incrível) uma década e meia atrás. Guardo com tanto carinho as memórias dos -quase- velhos tempos. Não tínhamos muitos recursos, se você quisesse flertar com aquela garota bonita do colégio, você tinha que falar com ela. Falar mesmo. Nada de mandar uma mensagem no facebook, curtir uma foto ou participar de um chat ou bate-papo qualquer. A segunda opção era esperar pelo correio elegante. A melhor data do ano para falar algo que você não tinha coragem de falar no tête-à-tête.

Eu amava isso tudo. O fato de poder escrever cartas, para mim, era especial. Fico infeliz de dizer a palavra, mas fico sem opção: 'antigamente', era romântico escrever uma bela carta com perfume -mas sem exageros- e mandar para a garota desejada. Era sempre bem vinda uma carta de amor, ao menos era o que parecia. Lembranças palpáveis, daquelas que podemos guardar em caixinhas onde colocamos só as coisas mais especiais que vivemos. É engraçado pensar: nossas memórias mais especiais na atualidade se encontram em caixinhas que precisam de baterias pra funcionar.

Tenho medo do efeito da internet nessa nova geração. As pessoas estão tão acostumadas com a facilidade que esse recurso oferece, que tem esquecido aos poucos os contatos básicos (mas necessários) que unem as pessoas. Uma frase clichê que se aplica a meu raciocínio seria: "a internet veio para aproximar que está longe e afastar quem está perto.". 

Como serão os Romeus e Julietas dessa geração? será que o Romeu, ficaria esperando na sacada, e mandaria uma inbox no facebook para a Julieta aparecer na janela? será que a Chapeuzinho Vermelho faria um check-in no foursquare quando entrasse na floresta? ou João e Maria, com o auxílio de um gps, não se perderiam?

Fico imaginando o custo benefício disso tudo. Será que a internet nos deu mais do que nos tomou? O medo da resposta começa quando essa pergunta acaba de ser feita na minha mente.

T.Rodrigues

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Provável história real

Na cama, de olhos fechados, percebo minhas pálpebras ficando vermelhas levemente e a sensação de calor aumenta. É o sol que veio me dar bom dia, pela janela entreaberta. Levanto e penso em todas aquelas coisas que deixei pra fazer nessa quarta feira de outono. Aquela dieta que eu não comecei na segunda, a torneira do banheiro que continua pingando, a ração que não coloquei pro gato ontem. Vou fazer tudo hoje, sem falta. Mas preciso ir trabalhar.

O caminho foi mais tranquilo que ontem, o trânsito parece estar melhor. Me pego olhando pela janela do carro, e de repente tudo parece fazer parte de uma construção divina, algo maior. Esses quarteirões quadrados em formato de bolo da minha falecida vovó. Esses sinais mudando suas cores, me lembram o natal que está por vir. Até o velho da praça, pedindo esmola, me faz sentir renovado. Me compadeço dele. Uma moeda hoje, é o que eu tenho, espero que ele mate sua fome. Continuo meu caminho.

Tenho muito trabalho pra fazer, dou um "bom dia" tímido para a secretária e sigo para o escritório. A minha sorte é que ainda tenho até sexta pra entregar. Ando cansado, Deus sabe o quanto. Minha família, as vezes me sinto distante dela. Eu realmente preciso mudar isso, vou parar com essas promessas. Quando chegar em casa, vou alugar um filme para ver com eles.  Espero que eles gostem. Apesar dos problemas, me sinto grato por ter mais um dia. E se o dia for ruim, minha cama me espera em casa. Minha esposa me espera nela. Meus filhos.

Amanhã, eu começo a dieta. 

(anônimo, World Trade Center, 11-09-2001)

T. Rodrigues


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Destino é conto da carochinha

Da moça eu pouco sabia, o que tenho em mente me foi contado, quiçá observado. Filha única, um metro e pouco, peso médio para uma altura mediana, beleza dessas de cinema. A maioria das histórias que conto é assim. O que faz o caso dela ser atípico era que tudo para ela não passava de coincidência. Ela usava padrões. Não acreditava em nada. Tudo se encaixava matematicamente. Até o dia que conheceu Arthur.

Ela narrou à situação dessa maneira: quando saiu do trabalho, quis pegar um caminho diferente para casa. Passando pela Rua dois, um congestionamento (nunca antes visto na região) fez com que ela parasse o carro, fechando um cruzamento. Algo lhe incomodou de longe, abriu a porta para ver o que era: uma criança sozinha na rua. Aproximou-se e percebeu que a mãe estava por perto. Virou-se para seu carro no tempo exato de presenciar outro veículo chocar-se com o seu. Respirou fundo. “Essas coisas acontecem.” Um homem saiu de dentro do carro e veio desculpar-se pelo acidente. O cabelo dele era do tipo que ela achava mais atraente. Os olhos eram claros, do jeito que ela amava. Era da altura que ela gostava em um homem. Ele por sua vez, educadíssimo, fez uma boa primeira impressão, apesar da situação inesperada. “Meu nome é Arthur, sinto muito pelo carro...” e esse era o nome que ela pretendia dar para seu primeiro filho, caso um dia tivesse um. Até agora, para ela, nada disso era destino. Não passava de fatos matemáticos, equações e escolhas que a levaram aquele lugar.

Então percebeu que do carro de Arthur vinha uma música.

- O que você está ouvindo?

- Frank Sinatra.

Pronto. Agora ela acreditava.

T. Rodrigues


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A mais doce da cidade

Conheci uma mulher na rua da feira, entre flores e verduras. Andava despreocupado, quando vi seu rosto na sacada a observar o movimento. Eu estava lá embaixo, ela lá em cima.

A minha frente o feirante anunciava "a melancia mais doce da cidade". Curioso, cheguei perto, e o vendedor me ofereceu um pedaço para experimentar. Olhei para o alto, ela ainda estava lá. Peguei a melancia, comi um pedaço e constatei: realmente era a mais doce que já havia comido. Enquanto apreciava o gosto, me veio algo à cabeça: será que doces também são os lábios dessa mulher na sacada da feira ? Ahhh, como queria prová-los...

Ouvi um barulho ensurdecedor que me trouxe de volta a realidade. Com uma buzina, o homem do Biju gritou, praticamente dentro do meu ouvido: “olha o Biju! Olha o Bijuuu!”, apertando a buzina e chamando a atenção de todos. Ela a que tudo observava, olhou para mim e sorriu, talvez o meu susto houvesse despertado o seu sorriso, não sei. A verdade é que a moça na sacada tornou minha ida à feira o evento mais esperado da semana.

Foto: Limoncino

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cartão postal

Quando vejo aquele cartão postal, aquele sério, meus olhos mentem. O sorriso fora daquele rosto simplesmente não combina, é falsa representação da verdadeira personalidade. Seriedade parece não encaixar quando felicidade é o que a define. Incompatível como quando a gente encaixa as pilhas do controle remoto às avessas. Inverossímil como quando a gente troca a ordem das cordas do violão. Inadmissível como colocar sal no café com leite e esperar que seja doce. Não é justo, não a representa. Portanto, colocarei açúcar no café, inverterei as cordas do violão e encaixarei as pilhas na ordem correta, se ela sorrir no próximo cartão postal.

T.Rodrigues



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sobre gentileza e romantismo

Saúdo os antiquados! Aqueles que ao conhecer, dizem "encantado em conhecê-la"; ao agradecer, dizem "não há de quê"; ao se referirem às mulheres, usam "senhorita", meu respeito! Que conservam o "primeiro as damas", que pedem a devida licença ao entrar e sair, que se mantem elegantes mediante ao desespero, os aclamo! Louvores à aqueles que fazem a gentiliza, aqueles que a praticam, que não tem medo de serem chamados de antigos ou  conservadores. Que presenteiam com rosas, que se atem às serenatas, que enviam cartas de papel e planejam seus jantares, minha admiração eterna! Pois os gentis poderão deixar de ser românticos, mas os românticos sempre serão gentis. Rumo à extinção caminharemos, rumo à raridade...

T.Rodrigues